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Reportagem Milhões de Festa 2010 (parte 2)

Seguimos então com a reportagem do festival Milhões de Festa, que decorreu nos passados dias 23, 24 e 25 de Julho, em Barcelos.


2º Dia (24 de Julho)

Depois de uma manhã difícil no segundo dia, nada como a visita à piscina para refrescar corpo e mente. Com a temperatura ainda mais elevada que na véspera, foi difícil ficar fora de água enquanto apreciávamos actuações como Lululemon, Throes ou Feia Medronho. Seguiram-se Marçal dos Campos e a actuação em conjunto dos DJ’s Yeah com Fabulosa Marquise, que incluiu uma aula de hidroginástica, e muita dança que nos foi prendendo pelas piscinas até mais tarde.

Chegamos ao recinto ligeiramente atrasados. O povo deslocava-se do palco Vice para o palco Milhões, após uma aparente actuação insatisfatória dos Hype Williams, e aglomerava-se para ver PAUS. Numa noite bastante quente, o “super” projecto experimental lisboeta proporcionou uma espantosa actuação. Apresentando um núcleo rítmico fortíssimo, composto por uma bateria siamesa no coração do palco (Joaquim Albergaria, ex-The Vicious Five e Hélio Morais, If Lucy Fell), acompanhado por baixo (Makoto Yagiu, If Lucy Fell) e teclado (João “Shela” Pereira, If Lucy Fell), PAUS é um espectáculo a não perder. Um trabalho de percussão de excelência, acompanhado por melodias e vozes, em canções que gradualmente vão crescendo de intensidade, conquistando o público por completo. A afluência foi bastante elevada, numa noite bastante quente. No final, migrou-se para o palco Vice, onde já actuavam os ALTO!. A banda local apresentou as suas mais recentes gravações (a cassete “Computer Says No”), e entre temas como “Syphilis” e “Pussy” mantiveram o público a abanar o capacete ao som de um rock n’ roll à antiga, guitarradas à The Cramps, e muita boa disposição em palco.

À medida que nos aproximávamos do palco Milhões, apercebemo-nos que a média de idades do público tinha subido. Subiam ao palco os The Fall, projecto de vida do irreverente frontman britânico Mark E. Smith. Mas se a grande maioria dos concertos do Milhões excederam as expectativas, os cabeças de cartaz dificilmente terão conseguido corresponder às mesmas. Quem não estava familiarizado com a personalidade pouco ortodoxa de Mark E. Smith terá saído do concerto mal impressionado. Abrindo com os temas “Your Future, Your Clutter” e “Over! Over!”, a formação actual da secção instrumental esteve bastante competente. No entanto, Mark E. Smith deambulou pelo palco, balbuciou letras indecifráveis, esteve indeciso em relação aos microfones (chegando a segurar dois ao mesmo tempo), baixou os amplificadores aos músicos sem razão aparente e teve ainda tempo de ir à sua carteira vasculhar os seus cartões. Durante “Cowboy George” e “Bury”, o público mais jovem terá ficado de tal maneira entediado que abriu mesmo um mosh pit, desnecessário, que pareceu não agradar muito a banda. O tema que melhor soou foi “I’ve been duped”, tendo sido Elena Poulou, responsável pelos efeitos sonoros, a vocalista. Após uma actuação pouco concisa, abandonaram o palco mais cedo do que o esperado. Diz, quem já os conhece, que já foi uma sorte Mark E. Smith ter aparecido. Menos mal, então.

Seguiu-se André Granada, com um vasto arsenal de música electrónica mas público reduzido no palco Vice. Já durante Gold Panda, a afluência aumentou, assim como o nível de agitação entre os presentes. De seguida, os El Guincho procuraram recuperar a animação do palco Milhões, e com algum sucesso. A banda espanhola colocou o público a dançar, num ambiente sonoro propício ao calor que ainda resistia no ar, apesar de serem quase 2h da manhã. Após uma hora de dança e boa disposição, deslocamo-nos ao palco Vice. Sofia Magalhães subia ao palco, e abria o concerto do trio portuense Crisis, pesado e enérgico, expelindo berros diabólicos acompanhados por uma descarga electrónica que provocou o caos entre a assistência. Entre frases de incentivo e agradecimento à organização, e uma queda aparatosa, Sofia Magalhães mostrou-se um carismático animal de palco, electrizada por alguns dos seus temas mais conhecidos como “Moonchild” ou “Out In The Twilight”. A fechar contaram com a participação de Igor Ribeiro em “New Dawn Kid”. Um grande concerto, que ilustrou bastante bem o espírito do festival. Concorrência, Bandido$ e Xinobi foram os nomes que mantiveram animados os resistentes até à manhã seguinte.

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3º Dia (25 de Julho)

Na última ida à piscina não faltou boa disposição a todos os presentes, e a actuação dos Tigre Deficiente teve a sua dose de influência. Ficou à responsabilidade dos The Shine manter o povo a curtir e a abanar os traseiros durante o resto da tarde. Finalmente, pertenceu aos Andamento Djs a última actuação neste palco refrescante que tanto deixou saudades.

Chegamos ao recinto ao som de Year Long Disaster. O projecto paralelo dos membros de Karma To Burn, tomou conta do palco Milhões com um hard rock recheado de riffs sulistas, embora enfadonho a certas alturas. O público era reduzido e não pareceu muito animado. Em contraste, no palco Vice, foi a vez dos nipónicos Bo Ningen arrasarem o público com uma actuação insana mas não menos impressionante. Em estilo andrógeno, vestes compridas e cabelos lisos pelo fundo das costas, o quarteto oriental apresentou-nos o seu EP “Koroshitai Kimochi”, um rock psicadélico e experimental, cheio de energia e intensidade. Junto a mim, um senhor de longa barba branca, vestido apenas com calções de banho vermelhos e uma credencial ao pescoço estava boquiaberto enquanto um cigarro queimava entre os seus dedos. Um dos concertos mais marcantes dos três dias.

Ainda estupefactos com a actuação dos Bo Ningen, tomamos lugar na fila da frente do palco Milhões para ver Karma To Burn. Os britânicos não desiludiram, com uma descarga de stoner metal instrumental que varreu as filas da frente num incessante headbanging. Riffs poderosíssimos, que nos fizeram viajar pelos seus discos “Almost Heathen” e o mais recente “Appalachian Incantation”. Fecharam com uma versão de “Never Say Die!” dos Black Sabbath.

E se a esta altura já se acumulava uma dose de concertos memoráveis, nada nos preparou para o que iríamos assistir no palco Vice. Aliás, quando lá chegamos não fazíamos a mínima ideia do que se passava. No palco estavam apenas alguns fotógrafos que registavam a massa humana que fazia um autêntico motim à frente do palco, ao som de uma bateria, uma guitarra e uma voz cujos intérpretes estavam perdidos lá no meio. Claramente, chegaram os controversos israelitas Monotonix. Os seguranças lá nos deixaram subir pela rampa lateral onde poderíamos ver melhor e registar algumas fotografias. Qual não é a minha surpresa, quando reparo que o vocalista, – que de forma inacreditável está a fazer crowd surfing num banco de bateria, enquanto que o povo segura um timbalão, que o primeiro destrói com as baquetas – era o calmo senhor barbudo que assistiu ao concerto de Bo Ningen ao meu lado. O seu nome é Ami Shalev, e a sua profissão trazer o inferno à terra. Entre centenas de fãs em mosh e dezenas em crowd surfing, toda esta confusão era movida por um garage rock da pesada. A certa altura o trio israelita decidiu subir pela rampa onde nos encontrávamos e tocar cerca de 8 metros acima do povo. Ami Shalev, insatisfeito, optou por descer alguns metros, colocando-se quase à minha beira, e ao contar até 4 mergulhou para o público, que o apanhou e levou até à frente do palco. Entre outros stunts como sentar o público todo ou subir às grades e amplificadores, esta actuação tornou-se o assunto mais discutido entre todos os presentes no recinto durante o resto da noite. De valorizar o facto da segurança ter sido bastante permissiva tanto aos intérpretes como ao público, possibilitando um espectáculo que seria impossível em qualquer outro festival. Ah, e note-se, ninguém se magoou (vá, se alguém se magoou com certeza que saiu de lá feliz com uma grande história para contar).

Quem terá saído a perder com este espectáculo foram os Toro Y Moi. Bundick e os seus acompanhantes, começaram o concerto quando o público ainda estava a regressar do palco Vice (e a recorrer a cerveja fresca), e o estilo chillwave dos norte-americanos acabou por atrair pouco público à zona frontal ao palco Milhões. Navegaram pelo seu disco “Causers Of This”, lançado este ano, mas nunca chegando a conquistar completamente a sua audiência. O concerto, assim, pareceu curto assim como desconsolado.
Coube aos catalães ZA! reanimar o público gradualmente recuperado de Monotonix. O dinâmico duo espanhol proporcionou uma viagem alucinante, entre riffs de rock clássico, a punk, a jazz, numa actuação que se pode considerar ao nível do Milhões de Festa.

Delorean fecharam as festividades do Palco Milhões. Com relvado (se ainda sobrava relva…) bem composto, o quarteto do País Basco manteve o seu público a dançar durante quase uma hora e meia. Pelas “bancadas” de pedra, atrás, já víamos centenas de festivaleiros exaustos, alguns sentados, outros já deitados, a contemplar um céu estrelado, ao som de temas como “Real Love” e “Stay Close”. Fechado o palco Milhões, foi a vez de um outro grupo basco assombrar o palco Vice. Os Crystal Fighters sobem ao palco liderados por um messias encapuzado, que se fartou de puxar pelo público presente. Ao som de uma poderosa electrónica dançável, acompanhada pela peculiar percussão de um txalaparta, o público não parou um segundo durante toda a actuação. Para nós, foi a hora de voltar para o campismo, tal era o desgaste. Para os que conseguiram, ainda a noite lhes terá proporcionado muita dança com a actuação de South Rakkas Crew.

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Ao abandonar o recinto na segunda-feira, ao despedirmo-nos da espectacular equipa de seguranças, o ambiente pelo acampamento já era de saudade. O Milhões de Festa é uma memória de um fim-de-semana inesquecível, um formato de festival que parecia extinto. Todos aguardamos com expectativa a próxima edição, e que seja, no mínimo, igual a este ano. Parabéns a toda a organização.

Texto por Manuel Almeida

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