em Agosto 1, 2010 0 comentários
Reportagem Milhões de Festa 2010 (parte 1)
Se criassem um prémio para o melhor festival de música em Portugal, o Milhões de Festa provavelmente não surgiria nos nomeados para este ano de 2010. Isto, se esse prémio fosse baseado em dimensão, afluência, retorno financeiro ou nomes sonantes. No entanto, se tivéssemos em conta a qualidade dos espectáculos, o bem-estar dos presentes e o genuíno espírito “festivaleiro” entre todos os participantes – bandas ou público -, o MdF seria um merecido vencedor. Quem não esteve presente certamente já apanhou uma grande seca quando se sentou no café com os seus amigos que estiveram em Barcelos no passado fim de semana de 23 a 25 de Julho.
Chegamos na quinta-feira, a véspera do arranque das festividades e Barcelos, a cidade escolhida para receber o Milhões, mostrou-se bastante acolhedora. O povo sempre muito simpático e os estabelecimentos não se aproveitaram da nossa presença para colocar preços absurdos. E se ao início foi complicado encontrar o local onde acampar, depressa se percebeu o funcionamento do festival. Dividia-se em três locais a decorar: O Parque da Cidade, a Piscina Municipal e o Parque Fluvial.
O primeiro funcionava como local de campismo. Munido de instalações sanitárias de qualidade (balneários e casas de banho, limpos com frequência) um café com esplanada e bar (onde uma garrafa de água fresca custava apenas cinquenta cêntimos), este Parque providenciou o conforto possível para os festivaleiros que optaram por acampar, mesmo tendo em conta a quantidade de pó e terra que preenchia o local.
No entanto, por volta das 14h de cada dia, os presentes podiam deslocar-se até à Piscina Municipal, local ideal para uma tarde bem passada. Fosse para assistir a algumas actuações, dar uns mergulhos para suportar o calor ou simplesmente ressacar da noite anterior, a piscina foi uma jogada de mestre por parte da organização.
Finalmente, por volta das 18h, o pessoal lá ia a uma jantarada rápida para não perder os primeiros concertos no Parque Fluvial, devidamente adaptado às necessidades do festival. À porta, dificilmente passava despercebido o Velociraptor, guardião do recinto. Por dentro, o recinto mostrou-se um terreno fácil de explorar, e de movimentação rápida entre os palcos. É um alívio entrar num recinto e não ser bombardeado com uma confusa mistura de barulho vinda de dezenas de tendas, patrocinadas por empresas que pouco ou nada têm a haver com música. Ao ouvir música de fundo, sabíamos que uma banda estaria a actuar, ou no palco Milhões (que se contemplava logo à entrada), ou no palco Vice (um palco “secundário”, mas cujos espectáculos não perderam em nada para o palco principal).
1º Dia (23 de Julho)
No primeiro dia tivemos direito às primeiras actuações na piscina, entre um grande concerto de BEARS, e uma performance de excelência em termos de animação e humor (para quem o percebeu) por parte do badalado Rudolfo. No recinto, foram os portuenses Plus Ultra que inauguraram, em grande, o palco Milhões. Os poucos presentes ficaram satisfeitos com uma actuação poderosa deste trio liderado por Gon, ex-vocalista dos Zen, que entre os seus temas complexos e pesados, cheios de energia, ainda proporcionou alguns momentos de humor, chegando a incitar à libertação de Filipe Leitão, Rei dos Gnomos. De seguida, por volta das 19h30, foi a vez dos lisboetas Larkin tomarem conta do palco Vice, ainda com pouca afluência. Ao passar a hora de jantar, mais gente foi chegando ao recinto, ainda a tempo de assistir à actuação dos The Glockenwise, jovem banda local, que apesar de ter um assistência reduzida e algo estática, não perdeu um pingo de energia durante todo o concerto. Rock com pedalada, sem lamechices e bastante bem disposto. Boa disposição, aliás, foi uma constante nesta noite que prometia muito rock n’ roll em ambos os palcos, e os Sizo, que se seguiram no Palco Vice, não ficaram atrás. A banda portuense mostrou-se igual a si mesma, e durante cerca de 45 minutos fez abanar as filas da frente, entre temas como “By No Means” ou “Strychnine”, tendo sido esta última dedicada ao Fua – alcunha de Joaquim Durães, cabeça da Lovers & Lollypops, a promotora portuense responsável pela organização do festival. Aliás, ao longo dos três dias, Fua foi alvo constante de dedicatórias, palavras de apoio e agradecimentos, em várias línguas, pelas bandas que encheram ambos os palcos.
Pouco antes das dez da noite, subiram ao Palco Milhões os Men Eater. Ao longo do escurecer do dia, o quarteto lisboeta foi o aquecimento perfeito para uma noite “da pesada”. Abrindo com “First Season” e apostando em temas do seu disco Hellstone, os Men Eater tiveram uma actuação poderosíssima e sem defeitos a apontar. Contaram ainda com a participação de André Henriques, dos Linda Martini, no tema “Lisboa” e também de Valient Himself, carismático vocalista dos Valient Thorr (que viriam a subir ao palco mais tarde), numa descarga de peso e groove entitulada “Man Hates Space”, que é fruto de uma colaboração de ambos em estúdio. Pelo meio, regista-se um público bastante participativo, com um diabólico circle-pit pelo meio. No final do concerto, olhando à volta, apercebemo-nos que o recinto já estava bastante bem composto. Por esta altura, o trio local Black Bombaim manteve em movimento o público que se deslocou ao palco Vice, com um stoner instrumental, pesado e psicadélico, que mostra que Barcelos é, de facto, uma genuína cidade do rock, e os seus produtos do género são de qualidade rara.
Um dos momentos mais esperados da noite, era a actuação dos norte-amer… perdão, venusianos Valient Thorr. Já os tínhamos visto a andar de um lado para o outro, numa entourage que mais se assemelhava a um moto-clube texano. Subiram ao palco para um rápido sound-check, o que ainda enganou alguns dos presentes. Despediram-se e voltaram 10 minutos depois. E o que se seguiu, foi uma das maiores actuações de rock n’ roll puro e duro que o nosso país já recebeu. Se um dia for organizado um festival para celebrar o fim da humanidade, os Valient Thorr abrirão as hostilidades. Riffs que tresandavam a bourbon do Tenessee, acompanhados por uma bateria-trovão, liderados por um pirata extra-terrestre, ruivo e barbudo, munido de um tanque estomacal de cerveja que faria corar qualquer camionista. Incitou à libertação da humanidade e à vitória do rock n’ roll. Se depois de Men Eater sobrou alguma relva no recinto, os Valient Thorr trataram disso. Até para os seguranças deve ter sido difícil de conter a vontade de mergulhar para o meio do pit, tal era o ambiente. “Tomorrow Police”, “Night Terrors”, “Vision Quest” e “Mask Of Sanity” foram alguns dos temas que provocaram o motim.
Dificilmente seria possível colocar uma outra banda de rock n’ roll no Palco Milhões naquela noite que pudesse superar, ou sequer igualar, o que tínhamos acabado de presenciar. No entanto, na chegada dos britânicos Electric Wizard, e a sua poderosíssima parede sonora de destruição lenta, encontrou-se o complemento perfeito para aquela noite, fechando o palco Milhões. O estranho quarteto britânico, conhecido pelo seu stoner/doom recheado de ambientes psicadélicos, teve uma actuação igualmente inesquecível. Desta feita, não havia mosh nem crowd-surfing, mas sim enormes ondas de headbanging a preencher as filas da frente, de forma lenta, ritmada e intensa, ao som de “Witchcult Today”. Foi altura de descansar ombros e pernas, e concentrar a energia na coluna e no pescoço. Um dos momentos marcantes deste concerto foi protagonizado por Jus Oborn, líder do grupo, que apanhou um ‘cigarro esquisito’ vindo do público, queimou-o numa impressionante ‘marroquina’ e apontou “- This is for you”, procedendo ao riff de abertura do tema “Dopethrone”, que intitula o seu mais recente disco. No final do concerto, o público, sedento de um encore, não arredou pé até aos técnicos de som desligarem os amplificadores.
Para os resistentes, o palco Vice proporcionou peculiares actuações electrónicas até de manhã. Tony From Eustachian foi quem inaugurou a madrugada, fazendo tremer todo o recinto, seguindo-se uma irreverente actuação de Captain Ahab. O duo californiano colocou em êxtase o público presente, que dançava freneticamente, motivados com certeza pelos ‘speedos’ azuis de Jim Merson. O resto da madrugada ficou ao comando de Sickboy e Megabass, que completavam um enorme primeiro dia de festival, abrindo o apetite para os dois dias que se seguiam.
Vejam em baixo as fotos – pelas mãos de Lara Luís – e leiam a segunda parte desta reportagem, aqui.
Texto por Manuel Almeida






