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Reportagem Marés Vivas ’10 – Parte 2

Chegados ao terceiro e último dia do Marés Vivas ’10 previa-se uma noite em cheio com o cartaz mais consistente e coerente dos três dias de festival. E assim foi, com a inestimável ajuda do público (português mas não só) que encheu por completo o recinto do evento, esgotando a sua lotação. Foram também muitas as celebridades e personalidades da política, do desporto e da televisão que marcaram presença na área V.I.P. do evento. Aqui ficam os destaques:

dEUS (dia 17 de Julho às 21h45m):

Os belgas dEUS regressaram a Portugal sem novidades a nível discográfico (o último álbum “Vantage Point” foi lançado há já dois anos) e, talvez por isso, apresentaram-se em modo best of, percorrendo o passado da sua carreira. O quinteto belga já não é o mesmo dos tempos de “Worst Case Scenario” ou “In a Bar Under the Sea” mas continuam a ser uma visita frequente aos palcos nacionais e, talvez por isso, continuem a usufruir de um estatuto de banda de culto em Portugal, com Tom Barman, o seu incontornável líder, a desempenhar na perfeição o papel de frontman.

Percorrendo todos os seus álbuns, os dEUS presentearam-nos com um espectáculo sólido e extremamente profissional, muito característico de uma banda habituada a estas andanças e com muitos anos de estrada mas que, por outro lado, pecou por ser previsível, de curta duração e com pouco nervo. Grandes canções do seu repertório como “Instant Street”, “Fell Off The Floor, Man”, “Theme From Turnpike” (com o magnífico sample de Charles Mingus), “The Architect”, “Little Arithmetics” ou a excelente “Suds And Soda”, para encerrar o concerto, foram muito bem recebidas pela assistência e transportaram-nos numa viagem pela carreira desta bem sucedida banda que sempre virou as costas ao mainstream e que por isso manteve sempre uma identidade inatacável.

No final não houve direito a encore mas ficou a promessa de um regresso em 2011 para apresentarem o seu próximo álbum de originais que já está na calha para ser lançado em Fevereiro do próximo ano.

Alinhamento:

  • Bad Timing
  • Instant Street
  • Fell off the Floor, Man
  • Slow
  • Smokers Reflect
  • Theme from Turnpike
  • The Architect
  • Favourite Game
  • If You Don’t Get What You Want
  • Nothing Really Ends
  • Little Arithmetics
  • Morticiachair
  • Suds and Soda

Editors (dia 17 de Julho às 23h00):

Havia grandes expectativas em relação ao concerto dos Editors no Marés Vivas e os seus fãs, presentes em grande número, aguardavam com ansiedade a entrada em palco da banda de Tom Smith e companhia, percursores da escola pós-punk (assim como os Interpol e os These New Puritains, por exemplo) e descendentes directos dos Joy Division.

Começaram com duas novidades, “In This Light And On This Evening” e “An End Has a Start”, recebidas com alguma indiferença para de seguida conquistarem o público com outras duas canções, estas mais conhecidas: “Bones” e “Bullets”. Mais à frente “Blood” e “Munich” levaram o público ao delírio após mais uma novidade “Eat Raw Meat = Blood Drool”, e quando tudo parecia bem encaminhado algo de anormal ocorreu durante o tema “Smokers Outside The Hospital Doors” com o vocalista, que estava ao piano, a subitamente abandonar o palco, durante cerca de quinze minutos, sem razão aparente. Após três tentativas falhadas da sua interpretação, Tom Smith chegou mesmo a atirar para o chão uma guitarra (!), sinal claro de que algo não estava a correr como planeado. Sem haver certezas absolutas, falou-se de um hipotético problema eléctrico com o equipamento em palco mas nada foi confirmado pela organização.

Facto indesmentível é que daí para a frente o concerto ficou manchado pelos problemas técnicos e razoavelmente encurtado (com “Smokers Outside The Hospital Doors”, “No Sound But The Wind” e “Fingers In The Factories” a serem excluídas do alinhamento previsto) e apesar do regresso dos Editors ao palco para um encore improvisado dos temas “Bricks And Mortar” e “Papillon”, no fim ficamos todos com um amargo de boca…

Alinhamento:

  • In This Light and on This Evening
  • An End Has a Start
  • Bones
  • Bullets
  • Eat Raw Meat = Blood Drool
  • Blood
  • Munich
  • The Racing Rats
  • Smokers Outside The Hospital Doors
  • Bricks and Mortar
  • Papillon

Ben Harper & Relentless7 (dia 17 de Julho à 1h15m):

O cabeça de cartaz deste dia era indubitavelmente Ben Harper e a sua nova banda, os Relentless7, e foi para assistirem ao seu concerto que a maioria das pessoas presentes no recinto se deslocou até ao Cabedelo no dia 17 de Julho. A poucos minutos do início do espectáculo era quase impossível percorrer a área em frente ao palco TMN, o principal do Festival Marés Vivas, e só a partir da zona de imprensa pude ver e escutar com mais atenção esta actuação que não terá desapontado nenhum dos seus fãs. Nesta nova etapa da sua carreira, Ben Harper optou por um registo mais rock – apesar da fusão deste género com o blues, o folk e a soul continuar a ser uma realidade – e os Relentless7 prestam-lhe o apoio necessário para dominar essa sonoridade ao vivo e em disco.

O início foi ao som do hit “Diamonds On The Inside” (da fase Innocent Criminals) mas o concerto girou em torno dos temas do novo trabalho de originais “White Lies For Dark Times”, gravado precisamente com os Relentless7, pelo que não se estranhou a interpretação de “Shimmer & Shine”, “Number With No Name” e “Feel Love”, por exemplo, numa actuação onde a duração dos temas se arrastou, por vezes desnecessariamente, entre solos de guitarra e jam sessions intermináveis que recuperavam, de forma pouco inspirada, super-clássicos de Jimi Hendrix ou de Led Zeppelin , ou ainda medleys de mau gosto onde o riff de “The National Anthem” (dos Radiohead) chegou mesmo a funcionar como introdução a uma medianacover de “Billie Jean”, de Michael Jackson.

Ben Harper elogia com frequência a localização do recinto do festival afirmando até que “I wish I could smell the ocean in every concert like I do here”, o país e o público português. E o maior elogio que lhe posso retorquir é quando se consegue cingir à interpretação de canções originais, pois é aí que consegue impressionar como músico, e foi isso que aconteceu até ao final do concerto e nos dois encores através dos quais agradeceu a devoção dos seus inúmeros fãs. No primeiro a toada foi acústica e mais intimista com Ben Harper sozinho em palco (“Burn One Down” foi um dos momentos altos da noite) e no segundo, e de novo, acompanhado pelos Relentless7 regressou à electricidade e ao rock, num concerto com duração superior a duas horas e vinte minutos e que encerrou com chave de ouro a edição 2010 do Festival Marés Vivas.

Alinhamento:

  • Diamonds on the Inside
  • Shimmer & Shine
  • Number with no Name
  • Billie Jean
  • Better Way
  • Feel Love
  • Keep it Together (So I Can Fall Apart)
  • Up to You Now
  • Power of the Gospel
  • Burn One Down
  • Amen Omen
  • Serve Your Soul

Aqui fica a playlist com os vídeos, como é hábito:

Com um percurso ascendente e a afirmar-se a cada nova edição como uma alternativa credível (em especial nestes dois últimos anos) no panorama dos festivais de Verão em Portugal, o Marés Vivas é um nome a ter em conta numa futura elaboração de um hipotético mapa dos mais importantes festivais de música que se realizam no nosso país. Não obstante a ocorrência de alguns incidentes, este festival tem para já como prémio, e também como responsabilidade, ser considerado o maior e mais importante festival a ter lugar na região do Grande Porto, o que já não é pouco. Há ainda muito para evoluir, é verdade, mas o que foi atingido até agora servirá como motivação extra para o futuro, com certeza. Em 2010 foi bom mas auguram-se vôos mais altos.
Até para o ano!

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