musicómetro

1280084007mares-vivas-parte1

Reportagem Marés Vivas ’10 – Parte 1

No dia 15 de Julho começou a edição de 2010 do Festival Marés Vivas, que mais uma vez se realizou no Cabedelo, mesmo ao lado do rio Douro, em Vila Nova de Gaia. O festival contou com uma adesão de público assinalável logo no seu primeiro dia, mas que afinal acabou por ser o dia menos concorrido, com cerca de 16 mil pessoas in loco. Visita indesejada neste dia foi a da chuva mas que, felizmente, resolveu não comparecer nos seguintes.
Segundo números da organização, a afluência de público teve o seu auge nos segundo e terceiro dias com o recinto (sobre) lotado com 24 mil e 25 mil pessoas, respectivamente, que se justifica pelas actuações nessas datas dos headliners Placebo e Ben Harper & Relentless7. Recorde-se, a título de curiosidade, que no ano transacto se atingiu a marca de 68.000 pessoas nos três dias de festival, registo que não foi superado este ano.

Inevitavelmente, o Musicómetro não poderia faltar ao evento e o escriba assistiu a vários concertos de entre os quais escolheu aqueles que mais se destacaram. São essas escolhas que vos apresento de seguida:

Goldfrapp (1º dia às 23h30):

Ainda antes do concerto dos Goldfrapp vislumbrei, da área reservada à imprensa e contígua à zona VIP, que entre os presentes estavam Stefan Olsdal e Steve Forrest, respectivamente baixista e baterista dos Placebo, que se posicionaram num local privilegiado para assistirem à actuação da dupla Alison Goldfrapp e Will Gregory.

Ora os Goldfrapp apresentaram-se em óptima forma, acompanhados em palco por mais três músicos (na bateria, baixo e teclados) e com o seu novo álbum “Head First” na bagagem. E talvez por isso, a sonoridade apresentada, baseada na interpretação de temas novos como “Voice Thing”, “Believer”, “Alive” ou o novo single “Rocket”, se tenha centrado maioritariamente no electroclash, synth pop e glam rock de teor marcadamente revivalista, num regresso (circa “Black Cherry” e “We Are Glitter”) do duo às influências musicais e cénicas dos anos 80, e naturalmente longe (ainda que pontualmente presente) da folk electrónica e minimalista do soberbo “Felt Mountain” de 2000.

Glamorosa é o adjectivo perfeito para definir Alison Goldfrapp, de vestido preto cintilante, que aos 44 anos continua a ser uma das melhores vozes da pop contemporânea, ela que no princípio da carreira se notabilizou pela sua participação no seminal “Maxinquaye” de Tricky lançado em 1995! A música era dançável e o ritmo propício à festa mas o público só a espaços é que se soltou e aderiu. Foi pena pois a vocalista bem tentou remar contra a maré incitando os presentes a “se mexerem mais” mas tudo foi em vão e o frio que se fazia sentir contagiou a plateia tendo a apatia sido generalizada e só quebrada com os temas mais orelhudos “Ooh La La” e “Strict Machine” na parte final da actuação. Não houve direito a encore.

Alinhamento:

  • Voicething
  • Crystalline Green
  • U Never Know
  • Dreaming
  • Number 1
  • Believer
  • Alive
  • Rocket
  • Shiny and Warm
  • Train
  • Ride a White Horse
  • Ooh La La
  • Strict Machine (We Are Glitter version)

Placebo (2º dia às 23h20m):

No dia em que ficamos a saber que o Festival Marés Vivas conta com a presença de dez mergulhadores/nadadores salvadores entre o seu staff, de modo a garantirem a segurança no rio Douro para todos os presentes, assistiu-se à primeira grande enchente. Se este era o dia em que actuavam os Placebo era também um dia com um cartaz mais sólido do que no anterior, o que aliado ao preço dos bilhetes – o Marés Vivas destaca-se por ser o festival com os preços mais baixos na Europa – e à melhoria das condições climatéricas, resultou numa plateia bem numerosa que aguardava ansiosamente pelos cabeças de cartaz daquela noite.

Os Placebo não defraudaram as expectativas da sua imensa legião de fãs em mais um regresso aos palcos nacionais. Neste concerto em particular o mote foi dado pelo seu mais recente álbum “Battle For The Sun” numa actuação em que os três suspeitos do costume (Molko, Olsdal e Forrest) que foram co-adjuvados por mais três músicos (dois deles nos teclados e programações e um guitarrista) brindaram a assistência com temas mais recentes – “Battle For The Sun”, “Breathe Underwater”, “The Never-Ending Why” e “Bright Lights” – intercalados com grandes êxitos do passado como “Nancy Boy”, logo de início e a abrir as hostilidades, “Every Me, Every You”, “Special Needs” ou “Sleeping With Ghosts”. Tempo houve ainda para uma pouco conseguida reinterpretação do clássico “All Apologies” dos Nirvana. O final foi ao som de “The Song To Say Goodbye” e “The Bitter End” em tom de ironia já que pouco depois os Placebo regressariam ao palco.

Apesar da clivagem existente entre os fãs mais antigos e os mais recentes (fala-se entre eles de um período pré-”Meds” e um período pós-”Meds”) a actuação agradou a todos e a, já habitual, empatia que se gerou entre os músicos e a plateia resultou num encore XL muito aplaudido e composto por quatro temas com “Taste In Men”, do bem sucedido “Black Market Music” de 2000, a servir de ponto final num concerto com duração superior a 90 minutos.

Alinhamento:

  • Intro
  • Nancy Boy
  • Ashtray Heart
  • Battle for the Sun
  • Sleeping with Ghosts
  • Bionic
  • Every You, Every Me
  • Special Needs
  • Breathe Underwater
  • The Never-Ending Why
  • Bright Lights
  • Meds
  • Teenage Angst
  • All Apologies (Nirvana cover)
  • Song to Say Goodbye
  • The Bitter End
  • Trigger Happy
  • Post Blue
  • Infra-Red
  • Taste in Men

Peaches (2º dia à 01h00m):

Jesus walked on water. Peaches walks on you!‘. Esta frase foi proferida por Peaches enquanto caminhava por cima do público durante a interpretação do tema “Show Stopper” e que resume em poucas palavras a actuação deste furacão canadiano. Após o final do concerto dos Placebo foram muitas as pessoas que resolveram abandonar o recinto do Marés Vivas mas uma maioria iluminada optou por permanecer no local… e ainda bem que o fizeram! Merril Nisker a.k.a. Peaches (ex-professora do ensino primário no Canadá), entrou em palco ao som da épica banda sonora do clássico sci-fi “Blade Runner” de Ridley Scott, composta por Vangelis, para logo a seguir começar a incendiar a plateia num arranque a todo o gás e com os decibéis no máximo com “Mud” logo seguida de “Talk To Me” em toada punk – sem paragens – e com crowdsurfing da artista à mistura em “Take You On”.

Em poucos minutos o público estava rendido, mesmo aqueles que não a conheciam, e dos que ficaram ninguém arredou pé até ao fim do concerto que foi considerado por muitos como o melhor do dia (e até do evento!). Escassos dias após a sua actuação no Optimus Alive!10 em Lisboa, Peaches não deixou os seus créditos por mãos alheias e não faltaram as atitudes provocatórias, a linguagem indecente, as garrafas de espumante barato a jorrarem para a plateia, o strip parcial de alguns elementos do público e as constantes trocas de vestuário impróprio numa performance muito semelhante àquela que havia presenciado no Festival Paredes de Coura em 2009 e que terminou em crescendo com o tríptico “Mommy Complex” / “Kick It” / “Fuck The Pain Away”. “Set It Off” em encore foi interpretada já em esforço e com a artista visivelmente inferiorizada fisicamente.

O que posso então concluir é que para além de todo o caos reinante existe um método – “The teaches of Peaches?” – e que esse método é eficaz. Peaches não era a artista mais virtuosa em cartaz mas foi de certeza absoluta a comunicadora mais “dotada” e a única que superou as expectativas.

Após este concerto no Festival Marés Vivas, e através de um post no Facebook, Peaches revelou ter sofrido uma entorse no tornozelo devido a uma queda durante a interpretação do primeiro tema (“Mud”) mas que continuou com a sua actuação por considerar que estava em condições para tal. Contudo, no dia seguinte foi assistida no hospital onde foi diagnosticada a lesão e aplicado gesso na zona afectada. Peaches continuará com a sua digressão mas actuando, de agora em diante, sentada numa cadeira de rodas cor-de-rosa e demoníaca e que é empurrada por uma enfermeira fétiche. Uma mulher de barba rija, portanto.

Alinhamento:

  • Intro (Blade Runner)
  • Mud
  • Talk to Me
  • Billionare
  • Take You On
  • Show Stopper
  • Serpentine
  • Shake Yer Dix
  • Tombstone
  • More
  • Boys Wanna Be Her
  • You Love It
  • Lose You
  • I Feel Cream
  • Mommy Complex
  • Kick It
  • Fuck the Pain Away
  • Set it Off

Enquanto aguardam pela segunda parte desta análise, deixo-vos com alguns vídeos dos concertos referidos, como já é costume:

2 pessoas opinaram sobre "Reportagem Marés Vivas ’10 – Parte 1"

    sinceramente tava muito mais à espera dos placebo. fizeram o que lhes competia e foram bons… mas nada de outro mundo! mas concordo plenamente com o k disseste sobre peaches. nao tava ah espera e superou kualker outro concerto neste evento deixando bokiabertos e de pés bem assentes na terra os que tavam a pensar deixar o mares vivas após placebo nesse dia. gostei imenso da actuação. e se ela tava magoada depois da primeira música, eu nao reparei… continuou com o mesmo fugor e intensidade!!

  • Miguel, obrigado pelo teu comentário.

    De facto na altura nem se notou que a Peaches se tinha magoado durante a actuação. Mas para poderes confirmar esse facto assiste a este vídeo que a própria lançou no YouTube:

    http://www.youtube.com/watch?v=SgkbzAjOYIo

    É auto-explicativo, digamos.

Deixa a tua opinião


Se quiseres uma imagem junto do teu comentário, precisas de um Gravatar